sexta-feira, 18 de maio de 2012

As vidas sucessivas


Como tínhamos dito, o homem deve antes de tudo aprender a se conhecer a fim de clarear seu porvir. Para caminhar com passo firme, precisa saber para onde vai. É conformando seus atos com as leis superiores que o homem trabalhará eficazmente para a própria melhoria e do meio social. O importante é discernir essas leis, determinar os deveres que elas nos impõem, prever as conseqüências de suas ações. O dia em que estiver compenetrado da grandeza de sua função, o ser humano poderá melhor se desapegar daquilo que o diminui e rebaixa; poderá se governar com sabedoria, preparar por seus esforços a união fecunda dos homens em uma grande família de irmãos.
    Mas estamos longe desse estado de coisas. Ainda que a humanidade avance na via do progresso, pode-se dizer, entretanto, que a imensa maioria de seus membros caminha pela via comum, em meio à noite escura, ignorante de si mesma, nada compreendendo do propósito real da existência.
    Espessas trevas obscurecem a razão humana. As radiações da verdade chegam empalidecidas, enfraquecidas, impotentes para aclarar as rotas sinuosas trilhadas pelas inumeráveis legiões em marcha e para fazer resplender aos seus olhos o objetivo ideal e longínquo.
    Ignorando seus destinos, flutuando sem cessar entre o preconceito e o erro, o homem maldiz, por vezes, a vida. Curvando-se sob seu fardo, lança sobre seus semelhantes a culpa das provas que suporta e que, muito freqüentemente, são geradas por sua imprevidência. Revoltado contra Deus, a quem acusa de injustiça, chega mesmo, algumas vezes, na sua loucura e desespero, a desertar do combate salutar, da luta que, por si só, poderia fortificar sua alma, esclarecer seu julgamento, prepará-lo para os trabalhos de uma ordem mais elevada.
    Por que é assim? Por que o homem desce fraco e desarmado na grande arena onde trava sem trégua, sem descanso, a eterna e gigantesca batalha? É porque este globo, a Terra, está em um degrau inferior na escala dos mundos. Aqui residem em sua maior parte espíritos infantis, isto é, almas nascidas há pouco tempo para a razão. A matéria reina soberana em nosso mundo. Nos curva sob seu jugo, limita nossas faculdades, estanca nossos impulsos para o bem e nossas aspirações para o ideal.
    Além disso, para discernir o porquê da vida, para entrever a lei suprema que rege as almas e os mundos, é preciso saber se libertar dessas pesadas influências, desapegar-se das preocupações de ordem material, de todas essas coisas passageiras e cambiantes que encobrem nosso espírito e que obscurecem nossos julgamentos. É nos elevando pelo pensamento acima dos horizontes da vida, fazendo abstração do tempo e do lugar, pairando, de alguma forma, acima dos detalhes da existência, que perceberemos a verdade.
    Por um esforço de vontade, abandonemos um instante a Terra e gravitemos nessas alturas imponentes. De cima se desenrolará para nós o imenso panorama das idades sem conta, e dos espaços sem limites. Da mesma forma que o soldado, perdido no conflito, não vê senão confusão em torno dele, enquanto o general, cujo olhar abraça todas as peripécias da batalha, calcula e prevê os resultados; da mesma forma que o viajante, perdido nas sinuosidades do terreno pode, escalando a montanha, vê-las se fundir em um plano grandioso; assim a alma humana, da altura onde plana, longe dos ruídos da terra e longe dos baixios obscuros, descobre a harmonia universal. Aquilo que, aqui em baixo, lhe parece contraditório, inexplicável e injusto, quando visto do alto, se reata, se aclara; as sinuosidades do caminho se endireitam; tudo se une, se encadeia; ao espírito, fascinado, aparece a ordem majestosa que regula o curso das existências e a marcha do universo.
    Dessas alturas iluminadas, a vida não é mais, para os nossos olhos, como é para os da multidão - uma vã perseguição de satisfações efêmeras - mas antes um meio de aperfeiçoamento intelectual, de elevação moral, uma escola onde se aprende a doçura, a paciência e o dever. E essa vida, para ser eficaz, não pode ser isolada. Fora de seus limites, antes do nascimento e após a morte, vemos, em uma espécie de penumbra, desenrolar-se inúmeras existências através das quais, ao preço do trabalho e do sofrimento, conquistamos, peça por peça, retalho por retalho, o pouco de saber e de qualidades que possuímos; por elas igualmente conquistaremos o que nos falta: uma razão perfeita, uma ciência sem lacunas, um amor infinito por tudo que vive.
    A imortalidade se assemelha a uma cadeia sem fim e se desenrola para cada um de nós na imensidade dos tempos. Cada existência é um elo que se religa, na frente e atrás, a elos distintos, a vidas diferentes, mas solidárias entre si. O presente é a conseqüência do passado e a preparação do futuro. De degrau em degrau, o ser se eleva e cresce. Artesã de seu próprio destino, a alma humana, livre e responsável, escolhe seu caminho e, se este caminho é mau, as quedas que advirão, as pedras e os espinhos que a dilacerarão, terão o efeito de desenvolver sua experiência e esclarecer sua razão nascente.

 Léon Denis

 


O Porquê da Vida

Harmonia do universo


    Deus é o centro de onde emanam e para onde retornam todas as potências do Universo. Ele é o foco de onde se irradia toda idéia de justiça, solidariedade e amor; o objetivo comum para o qual todos os seres se encaminham, consciente ou inconscientemente. É de nosso relacionamento com o grande Arquiteto dos mundos que decorrem a harmonia universal, a comunidade e a fraternidade. Para sermos irmãos, com efeito, é preciso haver um pai comum, e esse pai somente pode ser Deus.
    Deus, dirá você, tem estado presente sob aspectos tão estranhos, por vezes tão revoltantes para os homens crentes, que o espírito moderno se está afastando d’Ele. Mas que importam essas divagações sectárias? Pretender que Deus possa ser diminuído pelos propósitos dos homens equivale a dizer que o monte Branco e o Himalaia possam ser manchados pelo sopro de um mosquito. A verdade paira radiosa, deslumbrante, bem acima das obscuridades teológicas.
    Para entrever esta verdade, o pensamento deve se desligar das regras estreitas, das práticas vulgares, rejeitar as formas pueris com as quais certas religiões têm envolvido o supremo ideal. Deve estudar Deus na majestade de suas obras.
    Na hora em que tudo repousa nas nossas cidades, quando a noite está transparente e o silêncio se faz sobre a terra adormecida, então, ó homens, meus irmãos, elevem seus olhos e contemplem o infinito dos céus!
    Observem a marcha ritmada dos astros, evoluindo nas profundezas. Esses fogos inumeráveis são mundos perto dos quais a Terra não é mais que um átomo, sóis prodigiosos contornados por cortejos de esferas e dos quais as distâncias espantosas que nos separam se medem por milhões de anos-luz. Por isso nos parecem simples pontos luminosos. Mas, dirijam para eles esse olho colossal da ciência, o radiotelescópio, e vocês distinguirão suas superfícies, semelhantes a oceanos em chamas.
    Procurem em vão contá-los; eles se multiplicam até nas regiões mais remotas e confundem-se na distância, como uma poeira luminosa. Observem também, como sobre os mundos vizinhos da Terra se desenham os vales e as montanhas, mares são cavados, nuvens se movem. Reconheçam que as manifestações da vida se produzem por toda parte, e que uma ordem admirável une, sob leis uniformes e por destinos comuns, a Terra e seus irmãos, os planetas errantes no infinito. Verifiquem que todos esses mundos, habitados por outras sociedades humanas, se agitam, se afastam e aproximam dotados de velocidades diversas, percorrendo orbes imensos; por todo lado o movimento, a atividade e a vida se mostram em um espetáculo grandioso. Observem nosso próprio globo, a Terra, que parece nos dizer:”Vossa carne é a minha, vossos entes minhas crianças”. Observem-na, esta grande ama de leite da humanidade; vejam a harmonia de seus contornos, seus continentes, no seio dos quais as nações germinam e crescem, seus vastos oceanos sempre em movimento; acompanhem a renovação das estações revestindo-a, cada vez, de verdes adornos ou de louras colheitas; contemplem os seres vivos que a povoam: pássaros, insetos, plantas e flores; cada um deles é um cinzelado maravilhoso, uma jóia do estojo divino. Observem a si mesmos; vejam o desempenho admirável de seus órgãos, o mecanismo maravilhoso e complicado de seus sentidos. Que gênio humano poderia imitar essas delicadas obras-primas?
    Considerem todas essas coisas e perguntem à sua razão se tanta beleza, esplendor e harmonia, podem resultar do acaso, ou se não existe, sobretudo, uma causa inteligente presidindo a ordem do mundo e a evolução da vida. E se vocês me opusessem os flagelos, as catástrofes, tudo o que vem perturbar essa ordem admirável, lhes responderia: Sondem os problemas da natureza, não se fixem na superfície, desçam ao fundo das coisas e descobrirão, com surpresa, que as aparentes contradições mais não fazem que confirmar a harmonia geral, que são úteis ao progresso dos seres, único propósito da existência.
    Se Deus fez o mundo, replicam triunfalmente certos materialistas, quem então fez Deus? Esta objeção não tem sentido. Deus não é um ser que se junte à série dos seres. Ele é o Ser universal, sem limites no tempo e no espaço, por conseqüência infinito, eterno. Não pode haver nenhum ser acima nem ao lado dele. Deus é a fonte e o princípio de toda vida. É por ele que se religam, unem e harmonizam todas as forças individuais, e que sem Ele estariam isoladas e divergentes.
    Abandonadas a si mesmas, não estando regidas por uma lei, uma vontade superior, essas forças não teriam produzido senão confusão e caos. O fato de existir um plano geral, um propósito comum, do qual participem todas as potências do universo, prova a existência de uma causa, uma inteligência suprema, que é Deus.




Léon Denis

O Porquê da Vida

terça-feira, 8 de maio de 2012

Concentração nas Reuniões Mediúnicas





Uma das dificuldades dos integrantes das reuniões mediúnicas diz respeito à concentração.
   A capacidade de controlar, direcionar e manter o pensamento dentro das finalidades da reunião é, para a maioria, um esforço muito grande e que nem sempre dá bons resultados. Não raro os pensamentos se dispersam, fixam-se em fatos do dia-a-dia e acabam por tornar alguns sonolentos, enquanto outros estão distraídos e longe dos objetivos propostos para um trabalho sério. Alguns poucos, então, conseguem uma boa concentração e estes sustentarão os trabalhos programados, porém, como é óbvio, sem alcançar melhor produtividade devido aos bloqueios vibratórios existentes no ambiente.
   A nossa cultura ocidental não dá ênfase à necessidade do controle mental, pois é fundamentada em uma mentalidade racional, extremamente prática, extrovertida e imediatista valorizando a horizontalidade da vida terrestre, exatamente oposta ao Oriente, cuja mentalidade se estrutura de forma intuitiva, mística e introvertida e que realça a essência espiritual do ser humano, incentivando a busca da verticalidade.
   Nos últimos tempos tem-se notado um sensível aumento no interesse por algumas práticas orientais, ressaltando-se a meditação, cujos benefícios estão sendo procurados pelos ocidentais, que despertaram para a necessidade de uma busca interior, ou seja, o autoconhecimento.
   A concentração que é praticada nas reuniões mediúnicas, evidentemente, tem conotações próprias e não deve ser tomada aqui como as realizadas nas práticas orientais, embora os aspectos semelhantes nas suas bases, quais sejam a disciplina mental, o controle e equilíbrio dos pensamentos. Exatamente por terem estes mesmos fundamentos é que citaremos algumas definições de autores do Oriente, visto que a sabedoria oriental é multimilenar e pode beneficiar-nos sobremaneira através desses pontos comuns.

Concentração - Conceito: Concentrar, segundo o dicionário Aurélio, significa "fazer convergir para um centro ou para um mesmo ponto. Aplicar a atenção a algum assunto".
   Um autor oriental, Mouni Sadhu, esclarece que o poder de concentração consiste na "habilidade para manter inabalavelmente sua percepção sobre um tema escolhido, pelo tempo que você decidir continuar com ele" (Do livro "Meditação").
   É exatamente essa capacidade de concentrar nos objetivos da reunião mediúnica que irá favorecer a realização dos trabalhos.
   Leon Denis, em sua magistral obra "No Invisível", alerta:
                                    "Conforme o seu estado psíquico,
                                      os assistentes favorecem ou 
                                      embaraçam a ação dos Espíritos"

Dificuldades de Concentração

   Deixamos a palavra com Leon Denis, que assinala o motivo principal da dificuldade de concentrar:
                      "Na maior parte dos homens os 
                      pensamentos flutuam sem cessar. 
                      Sua mobilidade constante e sua 
                      variedade infinita pequeno acesso 
                      oferecem às influências superiores. 
                      É preciso saber concentrar-se, pôr 
                      o pensamento acorde com o 
                       pensamento divino.(...)"
                      ("O Problema do Ser, do Destino 
                        e da Dor", cap. XX)

   A reunião mediúnica apresenta ainda outras conotações que são peculiares ao tipo de atividade que ali se desenvolve.
   Assim, a dificuldade de concentrar-se nos objetivos elevados que o exercício da mediunidade requer é resultado da pouca prática que a maioria das pessoas têm de fixarem seus pensamentos em assuntos edificantes, em ideais e idíeias nobres durante o seu dia-a-dia. Estão com a mente sempre ocupada pelos problemas e questões do cotidiano, por coisas supérfluas e interesses imediatistas, pelo noticiário e programa da TV, por literatura e músicas teor inferior, por conversações extremamente banais e irresponsáveis, e não conseguem esvazia-la desses assuntos para dar campo às influências benéficas dos Espíritos Superiores, dos Mentores que assessoram os trabalhos.
   Ensia Leon Denis:
            "As preocupações de ordem material criam correntes 
             vibratórias horizontais, que põem obstáculo às radiações 
             etéreas e restringem nossas percepções. Ao contrário, 
             a meditação, a contemplação e o esforço constante 
             para o bem e o belo formam correntes ascensionais, 
             que estabelecem as relações com os planos superiores 
            e facilitam a penetração em nós deo eflúvios divinos ".

A importância da concentração mediúnica

  "Nesse sentido, consideremos a concentração mental de modo diverso dos que a comparam a interruptor, de fácil manejo que, acionado, oferece passagem à energia comunicante, sem mais cuidados... A concentração, por isso mesmo, deve ser um estado habitual da mente em Cristo e não uma situação passsageira junto ao Cristo".
   Nossos pensamentos têm determinado teor vibratório, de acordo com os sentimentos que os tipificam.
   É imprescindível compreendermos que o pensamento é energia viva "construindo paisagens ou formas e criando centros magnéticos ou ondas, com os quais emitimos a nossa atuação ou recebemos a atuação dos outros(Emmanuel - "Roteiro", cap.28).
    Este é o processo natural de sintonia e que predomina no curso de nossa existência.
   Nas tarefas mediúnicas esta sintonia apresenta peculiaridades próprias. É essencial que exista uma afinizaçào, uma sintonia entre os participantes para que se estabeleça uma sincronia de forças, a conhecida "corrent vibratória".
   Pode-se inferir, desde agora, o quanto é importante a concentração individual, visto que a qualidade dos trabalhos de intercâmbio depende fundamentalmente da participação consciente e responsável de cada um.
    Recordemos Leon Denis, quando leciona a respeito:
              "São favoráveis as condições de experimentação quando o 
               médium e os assistentes constituem um grupo harmônico, 
                isto é, quando pensam e bibram em uníssono. No caso 
                contrário, os pensamentos emitidos e as forças exteriorizadas 
                se embaraçam e anulam reciprocamente..."(No Invisível)

   Ele acrescenta ainda que o médium em meio a essas correntes contrárias fica bloqueado, sem condições de atuar mediunicamente ou bastante prejudicado na filtragem das mensagens.
   Em "O livro dos Médiuns", o Codificador ressalta a necessidade da concentração ao referir-se à reunião como um ser coletivo, resultante das qualidades e propriedades de seus membros e esta tanto mais força terá quanto maior homogeneidade vibratória houver. Ele afirma que o poder de associação dos pensamentos de todos é que contribuirá para a comunicação dos Espíritos, "mas a fim de que todos esses pensamentos concorram para o mesmo fim, preciso é que vibrem em uníssono; que se confundam, por assim dizer em um só, o que não pode dar-se sem a concentração"(Item 331).
    Portanto, cada participante precisa estar consciente de sua contribuição para que haja êxito nas atividades programadas pela Espiritualidade Maior.
   João Cleófas(Espírito), m seu excelente livro "Intercâmbio Mediúnico", desenvolve o pensamento de Kardec e Denis, em linguagem moderna:
          "A média que resulta das fixações mentais dos membros 
           que consituem o esforço da sessão mediúnica oferece 
           os recursos para as realizações programadas.
           A concentração individual, portanto é de alta relevância, 
           porque a mente que sintoniza com as idéias superiores 
           vibra em freqüências elevadas"


Como Obter uma boa Concentração

   A concentração não requer um esforço físico. Pessoas que tentam concentrar franzindo a testa, fechando os olhos com força ou denotando qualquer outro tipo de tensão muscular não alcançarão a finalidade a que se propõem.
   Ao contrário do que imaginam, a concentração exige um relaxamento e passa por alguns estágios, quais sejam:
     1. Relaxamento - O relaxamento do corpo físico serve para preparar e favorecer a calma, a tranqüilidade interior.
     2. Abstração - Abstrair-se do mundo exterior, de tudo ao seu redor.
     3. Interiorização - Fazer silêncio interior, abstraindo-se também dos conteúdos psicológicos(emoções, pensamentos, imagens, lembranças, etc).
     4. Fixar a mente - A mente se fixa e a atenção volta-se exclusivamente para o objetivo da reunião.
     5. Aquietar a mente - Neste ponto a mente se aquieta e, no caso dos médiuns, oferece espaço para a sintonia mental com o Espírito que irá transmitir a comunicação.

Afirma João de Cleófas:
         "A concentração, é, pois, a fixação da mente numa idéia positiva,
         idealista, ou na repetição meditada da oração que edifica, e que, 
         elevando o pensamento às fontes geradoras da vida, dá e recebe,
         em reciprocidade, descargas positivas de alto teor de energias 
         santificadoras."(Intercâmbio Mediúnico)

Pensamentos Intrusos

   Todos os que se iniciam nos exercícios de concentração ou de meditação percebem que é difícil controlar os pensamentos e que, com freqüência, vêem-se assaltados por pensamentos intrusos, inconvenientes e inoportunos.
   Deixemos a lição a respeito com um dos mestres orientais:
            "No início toda a sorte de maus pensamentos podem ocorrer,
             se levantarão na sua mente. Você se sobressaltará . 
             Ficará atormentado. Isto é um bom sinal. É sinal de progresso 
             espiritual. Voe está evoluindo espiritualmente. Esses 
             pensamentos, com a continuidade(dos exercícios), morrerão 
             com o tempo".(Trechos do livro "Concentração e Meditação",
             de Swami Sivananda).

   Ele também aconselha que a pessoa não lute contra a sua mente durante a concentração.
   O mais acertado é a ceitar com tranqüilidade e estabelecer o hábito de retorno, isto é, retornar aos objetivos propostos.
   No livro de Mira y Lopes, "Curso Prático de Concentração Mental" o autor refere-se ao"hábito de retorno", para disciplinar a mente.
André Luiz, sintetizando o esforço que os integrantes dos grupos mediúnicos devem realizar, anota em seu livro "Os Mensageiros" a palavra de Aniceto, relativa ao nosso tema:

          "Boa concentração exige vida reta. Para que os nossos 
           pensamentos se congreguem uns aos outros, fornecendo 
          o potencial, de nobre união para o bem, é indispensável o 
          trabalho preparatório de atividades mentais na meditação 
          de ordem superior. A atitude íntima de relaxamento(este 
          termo tem neste contexto o significado de descaso), ante 
         as lições evangélicas recebidas, não pode conferir ao crente, 
         ou ao cooperador, a concentração de forças espirituais no 
         serviço de elevação tão-só porque estes se entreguem 
         apenas por alguns minutos na semana, a pensamentos 
         compulsórios de amor cristão.(...)."(Cap. 47)

   A Doutrina Espírita é um convite permanente à transformação moral, levando a um processo natural de autodescobrimento e propiciando condições para a realização desse encontro pessoal. Toda essa mudança, quando ocorre naquele que já interiorizou os princípios espíritas, denota um amadurecimento que favorece a uma nova compreensão da vida e a uma necessidade premente da busca da verticalidade. Quando existe essa conscientização o indivíduo torna-se cônscio de usas responsabilidades procurando, então, adquirir hábitos equilibrados, o que irá favorecer a sua concentração enquanto integrante de um grupo mediúnico.
   Deixemos com Emmanuel a palavra final:
           "Receberás, portanto, variados apelos, nascidos do campo 
            mental de todas as inteligências encarnadas e desencarnadas 
            que se afinam contigo, tentando influenciar-te através de 
            ondas inúmeras em que se revela a gama infinita dos 
            pensamentos da Humanidade, mas se buscas o Cristo, não 
            ignoras em que altura lhe brilha a faixa."
             ("Seara dos Médiuns", Faixas pág. 125).



fonte      http://www.grupopas.com.br/cadastroArtigo/mostraArtigo.do?id=87

domingo, 22 de abril de 2012

Caminho verdade e vida - Emmanuel




Fonte Viva

"Se um irmão parece desviado aos teus olhos mortais, faze o possível por ouvir as palavras de Jesus ao pescador de Cafarnaum: “Que te importa a ti? Segue-me tu.”

"Quando te sentires cansado, lembra-te de que Jesus está trabalhando. Começamos ontem nosso humilde labor e o Mestre se esforça por nós, desde quando?"

"É contra-senso valer-se do nome de Jesus para tentar a continuação de antigos erros."

"Se teu próximo não pode alçar-se ao plano espiritual em que te encontras, podes ir ao encontro dele, para o bom serviço da fraternidade e da iluminação, sem aparatos que lhe ofendam a inferioridade."

"Conforto espiritual não é como o pão do mundo, que passa, mecanicamente, de mão em mão, para saciar a fome do corpo, mas, sim, como o Sol, que é o mesmo para todos, penetrando, porém, somente nos lugares onde não se haja feito um reduto fechado para as sombras."

"Em Cristo tudo deve ser renovado, O passado delituoso estará morto, as situações de dúvida terão chegado ao fim, as velhas cogitações do homem carnal darão lugar a vida nova em espírito, onde tudo signifique sadia reconstrução para o futuro eterno."

"Os desejos aviltantes, os impulsos deprimentes, a ingratidão, a má-fé, o traço do traidor, nunca foram da carne."

"Se queres que Jesus venha santificar as tuas atividades, endireita os caminhos da existência, regenera os teus impulsos. Desfaze as sombras que te rodeiam e senti-Lo-ás, ao teu lado, com a sua bênção."

"Será muito fácil ao homem confessar a aceitação de verdades religiosas, operar a adesão verbal a ideologias edificantes... Outra coisa, porém, é realizar a obra da elevação de si mesmo, valendo-se da auto-disciplina, da compreensão fraternal e do espírito de sacrifício."

"Os que afirmam apenas na forma verbal que o Mestre se encontra aqui ou ali, arcam com profundas responsabilidades. A preocupação de proselitismo é sempre perigosa para os que se seduzem com as belezas sonoras da palavra sem exemplos edificantes."

"O discípulo sincero sabe que dizer é fácil, mas que é difícil revelar os propósitos do Senhor na existência própria. É imprescindível fazer o bem, antes de ensiná-lo a outrem, porque Jesus recomendou ninguém seguisse os pregoeiros que somente dissessem onde se poderia encontrar o Filho de Deus."

"Ninguém olvide a verdade de que o Cristo se encontra no umbral de todos os templos religiosos do mundo, perguntando, com interesse, aos que entram: “Que buscais?”

"Deus é o Pai magnânimo e justo. Um pai não distribui padecimentos. Dá corrigendas e toda corrigenda aperfeiçoa."

"Haja, pois, suficiente cuidado em nós, cada dia, porquanto o bem ou o mal, tendo sido semeados, crescerão junto de nós, de conformidade com as leis que regem a vida."

"Não nos esqueçamos, pois, de que é sempre fácil assinalar a linguagem do Senhor, mas é preciso apresentar-lhe o coração vazio de resíduos da Terra, para receber-lhe, em espírito e verdade, a palavra divina."

"A união fraternal é o sonho sublime da alma humana, entretanto, não se realizará sem que nos respeitemos uns aos outros, cultivando a harmonia, à face do ambiente que fomos chamados a servir. Somente alcançaremos semelhante realização “procurando guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz.”

"Ninguém progride sem renovar-se."

"Pregadores que não gastam e nem se gastam pelo engrandecimento das idéias redentoras do Cristianismo são orquídeas do Evangelho sobre o apoio problemático das possibilidades alheias; mas aquele que ensina e exemplifica, aprendendo a sacrificar-se pelo erguimento de todos, é a árvore robusta do Eterno Bem, manifestando o Senhor no solo rico da verdadeira fraternidade."

"Afastemo-nos das nossas inibições e aprendamos com o Cristo a “sair para semear”.

"Vives sitiado pela dor, pela aflição, pela sombra ou pela enfermidade? Renova o teu modo de sentir, pelos padrões do Evangelho, e enxergarás o Propósito Divino da Vida, atuando em todos os lugares, com justiça e misericórdia, sabedoria e entendimento."

"É preferível que a morte nos surpreenda em serviço, a esperarmos por ela numa poltrona de luxo."

"Quando plantares a alegria de viver nos corações que te cercam, em breve as flores e os frutos de tua sementeira te enriquecerão o caminho."

"Transforma as tuas energias em bondade e compreensão redentoras para toda gente, gastando, para isso, o óleo de tua boa-vontade, na renúncia e no sacrifício, e a tua vida, em Cristo, passará realmente a brilhar."

"Se há mais alegria em dar que em receber, há mais felicidade em servir que em ser servido."

"Tua vida pode converter-se num manancial de bênçãos para os outros e para tua alma, se te aplicares, em verdade, ao Mestre do Amor. Lembra-te de que não és tu quem espera pela Divina Luz. É a Divina Luz, força do Céu ao teu lado, que permanece esperando por ti."

Emmanuel



Conta Marcel Souto Maior, no saboroso "As vidas de Chico Xavier" que, "o ano de 1931 foi movimentado para Chico. E triste. Cidália morreu em março. Pouco antes de ir embora, chamou o enteado e fez um pedido: ele deveria evitar que João Cândido se desfizesse, novamente, dos filhos - seis dela e nove do primeiro casamento.
Ah, mãe, fique despreocupada. Eu prometo que, enquanto minha última irmã não estiver casada, minha missão no lar
não terá acabado.
Depois da promessa, o apelo.
Não vá embora, não. Com quem vou conversar sobre minhas visões? Quem vai acreditar em mim?
Num último esforço, Cidália o consolou.
Tenho fé de que você ainda há de encontrar aquelas pessoas do arco-íris* e elas vão te entender mais do que eu.
Chico se sentia sozinho apesar das visitas esporádicas da mãe e das sessões no Centro Luiz Gonzaga. Para escapar do coro dos céticos, ele arrastava os pés pelas ruas de terra do arraial e, com os sapatos sempre frouxos, tomava o rumo do açude. Aquele era seu refúgio. Ali, ele se encolhia à sombra de uma árvore, na beira da represa, encarava o céu e rezava ao som das águas. Em 1931, o bucolismo da cena deu lugar ao fantástico.
O rapaz teve sua conversa com Deus interrompida pela visita de uma cruz luminosa. Franziu os olhos e percebeu, entre os raios, a poucos metros, a figura de um senhor imponente, vestido com túnica típica de sacerdotes. O recém-chegado foi direto ao assunto.
Está mesmo disposto a trabalhar na mediunidade?
- Sim, se os bons espíritos não me abandonarem.
- Você não será desamparado, mas para isso é preciso que trabalhe, estude e se esforce no bem.
O senhor acha que estou em condições de aceitar o compromisso?
- Perfeitamente, desde que respeite os três pontos básicos para o serviço.
Diante do silêncio do desconhecido, Chico perguntou:
Qual o primeiro ponto?
A resposta veio seca:
Disciplina.
E o segundo?
Disciplina.
- E o terceiro?
Disciplina, é claro.
Chico Xavier concordou. E o estranho aproveitou a deixa:
- Temos algo a realizar. Trinta livros para começar.
O rapaz levou um susto. Como iria comprar tinta e papel? Quem pagaria a publicação de tantos títulos? O salário de caixeiro no armazém de Felizardo mal dava para as despesas de casa, os 13 mil-réis mensais eram gastos com catorze irmãos; seu pai era apenas um vendedor de bilhetes de loteria.
Chico arriscou uma previsão.
Papai vai tirar a sorte grande?
O forasteiro encerrou as apostas:
- Nada, nada disso. Sorte grande mesmo é o trabalho com fé em Deus. Os livros chegarão por caminhos inesperados.
O roteiro estava escrito. Restava ao matuto de Pedro Leopoldo seguir as instruções. Seus passos, tropeços e quedas, muitas quedas, seriam acompanhados de perto por aquele estranho a cada dia mais íntimo, O nome dele: Emmanuel,
o mesmo que tinha se apresentado a Carmem Perácio quatro anos antes. A missão: guiar o rapazote e evitar que ele fugisse do script traçado no além. Chico deveria colocar no papel as palavras ditadas pelos mortos e divulgar, por meio do livro, a doutrina dos espíritos." (As Vidas de Chico Xavier", Marcel Souto Maior, Edit. Planeta)

* A equipe de Espíritos chefiada por Emmanuel, e principalmente este, devido a grandeza e peculiaridade da tarefa, provavelmente possui (ou possuía) atmosfera espiritual colorida a lembrar um arco-íris, como dizia Chico, pois de uma forma incompreensível para nós, as imagens ilustrativas de suas páginas foram sendo adornadas invariavelmente com um arco-íris. Podemos dizer mais: fazer isso tornou-se algo quase irresistível, enquanto que os fundos (ou backs) pendiam sempre para o marrom, a lembrar chão, terra. Por não compreender-lhe o motivo, retiramos o arco-íris de quase todas ilustrações, preservando apenas a desta página; da página que apresenta Emmanuel em sua encarnação como Manoel da Nóbrega (onde o desejo de inserir imagens da fauna e flora brasileira, exuberante e colorida nos tons do arco-íris, também foi algo quase irresistível) e a que ilustra a página ainda em construção "Anjos do Brasil", dedicada aos Espíritos que velam pelo Brasil desde as suas primeiras horas, dentre eles Emmanuel. (Lori, Instituto André Luiz).



Tudo nos fala de Deus



Tudo nos fala de Deus, o visível e o invisível. A inteligência o discerne; a razão e a inteligência o proclamam.

Mas o homem não é somente razão e consciência: é também amor. O que caracteriza o ser humano, acima de tudo, é o sentimento, é o coração. O sentimento é privilégio da Alma; por ele a Alma se liga ao que é bom, belo e grande, a tudo que merece sua confiança e pode ser sustentáculo na dúvida, consolação na desgraça. Ora, todos esses modos de sentir e de conceber nos revelam igualmente Deus, porque a bondade, a beleza e a verdade só se acham no ser humano em estado parcial, limitado, incompleto. A bondade, a beleza e a verdade só podem existir sob a condição de encontrar seu princípio, plenitude e origem em um ser que as possua no estado superior, no estado infinito.

A idéia de Deus impõe-se por todas as faculdades do nosso Espírito, ao mesmo tempo em que fala aos nossos olhos por todos os esplendores do Universo. A Inteligência suprema se revela a causa eterna, na qual todos os seres vêm haurir a força, a luz e a vida. Aí está o Espírito Divino, o Espírito Potente, que se venera sob tantas denominações; mas, sob todos esses nomes, é sempre o centro, a lei viva, a razão pela qual os seres e os mundos se sentem viver, se conhecem, se renovam e elevam.

Deus nos fala por todas as vozes do Infinito. E fala não em uma Bíblia escrita há séculos, mas em uma bíblia que se escreve todos os dias, com esses característicos majestosos que se chamam oceanos, montanhas e astros do céu; por todas as harmonias, doces e graves, que sobem do imo da Terra ou descem dos espaços etéreos. Fala ainda no santuário do ser, nas horas de silêncio e de meditação. Quando os ruídos discordantes da vida material se calam, então a voz interior, a grande voz desperta e se faz ouvir. Essa voz sai da profundeza da consciência e nos fala dos deveres, do progresso, da ascensão da criatura. Há em nós uma espécie de retiro íntimo, uma fonte profunda de onde podem jorrar ondas de vida, de amor, de virtude, de luz. Ali se manifesta esse reflexo, esse gérmen divino, escondido em toda Alma humana.

Por isso a Alma humana se constitui o mais belo testemunho que se eleva em favor da existência de Deus; é uma irradiação da Alma Divina. Contém, em estado de embrião, todas as potências, e seu papel, seu destino consiste em valorizá-las no curso de inúmeras existências, em suas transmigrações através dos tempos e dos mundos.

O ser humano, dotado de razão, é responsável, é suscetível de se conhecer e tem o dever de se governar. Como disse João Evangelista: “A razão humana é essa verdadeira luz que esclarece todo homem que vem ao mundo.” (João, 1:9). A razão humana, dissemos, é uma centelha da Razão Divina.

É subindo à sua origem, é comunicando com a Razão Absoluta, Eterna, que a Alma humana descobre a Verdade e compreende a Ordem e a Lei universais. Assim, direi a todos: Homens, filhos da luz, ó meus irmãos! Lembremo-nos da nossa origem; lembremo-nos do fim, durante a viagem da vida! Desprendamo-nos das coisas que passam! Liguemo-nos às que per
manecem!

Léon Denis
O Grande Enigma

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Léon Denis na Intimidade



Um traço na obra de Léon Denis é certa estranha e maravilhosa faculdade de ubiquidade. Muitas vezes ele pode estar em si mesmo e naqueles para quem escreve. É quando mais ilumina e mais aquece os corações. Mas existem, também, outros momentos de igual faculdade em que sua identificação com a obra de Kardec é tão perfeita, que já não sabemos mais quem estamos lendo, se um, se outro. Então ele se dirige, sincero e contrito, para Allan Kardec e exclama: “Meu mestre!”

Léon Denis era quase um adolescente quando a doutrina espírita arrebatou para sempre os caudais de sua alma vigorosa.

“Eu tinha 18 anos quando, por volta de 1864, passando um dia pela principal rua da cidade, vi, no mostruário de uma livraria, O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. Avidamente o comprei, às ocultas de minha mãe, muito cuidadosa quanto aos assuntos de minhas leituras.”

Mlle. Baumard irá comentar que “o rapaz entusiasta deveria discutir, raciocinar sobre a filosofia kardecista na presença de seus pais que, um após outro, aceitaram essas novas ideias...”

É relevante verificar que as derradeiras linhas ditadas por ele a Mlle. Baumard tenham sido para o prefácio à Biografia de Allan Kardec, escrita por Henri Sausse. Essas páginas derradeiras – apenas cinco! – são ricas de revelações, de melancólicas rememorações, um breve espaço para um demorado adeus. Denis lembra o remoto dia em que fizera aquela furtiva compra e diz com a surpreendente convicção de quem, defrontando o fim, não se arrependeu:
“Eu tinha 18 anos quando li O Livro dos Espíritos e isso foi, para mim, uma súbita iluminação de todo o meu ser. Eu não exigi provas a uma doutrina que respondia a todas as questões, resolvia todos os problemas de maneira a satisfazer a razão e a consciência.”

Não nos é difícil imaginar no austero dormitório do nº 19, Place des Arts, o silêncio riscado pela pena de Mlle. Baumard sobre o papel e a voz do jovem de 81 anos, que dita pela derradeira vez:

“Eu encontrei várias vezes Allan Kardec sobre o plano terrestre. A primeira vez foi em Tours, quando ele veio, ao curso de uma viagem de conferências. Tínhamos alugado uma sala para o receber, mas a polícia imperial, desconfiada, interditou-nos o seu uso. Foi preciso que nos reuníssemos no jardim de um amigo, à luz das estrelas. Éramos bem trezentas pessoas de pé, apertadas, pisando as platibandas, mas felizes por ver e ouvir o mestre, assentado em meio a nós, ante uma mesinha e que nos falava do fenômeno das obsessões.
No dia seguinte, quando fui levar-lhe os meus cumprimentos, encontrei-o nesse mesmo jardim, trepado num escabelo, colhendo cerejas para a Sra. Allan Kardec. Esta cena bucólica cheia de encanto contrastava com a gravidade dos personagens. Mais tarde encontrei-o em Bonneval, Eure-et-Loire, onde fora participar de um meeting [i] espírita que reunia todos os adeptos da região. Finalmente em Paris, ao curso de minhas viagens, pude trocar ideias com ele sobre a causa que nos era tão cara.”
Aqui cabe um pequeno parêntese para uma conotação de interesse histórico. Há apenas três pinturas feitas ao vivo, na vida inteira de Allan Kardec, três clarões iluminando a intimidade do grande renovador, antes que sua biografia se confunda definitivamente no contexto de sua obra: duas cartas de Müller, a datada de 31 de março de 1869, em que registra a visão melancólica do Codificador morto na pequena sala da Passage Sainte-Anne; a outra, de 4 de abril de 1869, em que descreve o cortejo fúnebre ao longo dos bulevares parisienses; o terceiro é esse cartão postal escrito 60 anos depois, fixando o idílio outonal sob a cerejeira.

Não muitas linhas além, encontram-se as observações que motivaram, passados mais 50 anos, os nossos comentários atuais. Inaugurando a obra biográfica de Sausse, Denis volta-se sobre si mesmo e vislumbra meio século de trabalho pela palavra e a pena, na difusão do Espiritismo, bem como o motivo de sua incondicional rendição a esse programa e exclama:
“Ademais, as provas estavam em mim mesmo! Eram como vozes longínquas a me falarem de vidas quase de todo apagadas, a evocação de um passado esquecido. Todo um mundo de lembranças se despertava em mim, com seu cortejo de males, de sangue e de lágrimas.”

Na Revue Spirite de janeiro de 1923, sob o título de “L’Spiritisme: la Theorie et les Facts”, o filósofo faz as seguintes revelações:
“Dos espíritos que me protegem, eu tenho um privilégio terrível, que não desejaria a ninguém, pois pode tornar-se causa de sofrimentos morais, uma amarga fonte de lamentações: trata-se do conhecimento de vidas anteriores. A esse respeito eu recomendo a maior circunspecção dos pesquisadores, pois certos espíritos comprazem-se em abusar do nosso desejo de sondar o misterioso passado. A melhor maneira de controlar é encontrar, em si mesmo, os traços desse passado. Importa verificar se os elementos de nossa personalidade moral – aptidão, gostos, tendências, opiniões, generalidades e defeitos – são concordantes com as indicações recebidas, com as funções ocupadas, trabalhos realizados, acontecimentos sofridos. Ora, no que me concerne, essas concordâncias existem. Por exemplo:
Várias vezes, do Além, e com detalhes dois tipos de homem dominam a série já longa de existências minhas: o monge e o soldado, assim como outras personagens mais antigas. Suas vagas silhuetas estão a meio submersas na sombra dos séculos e, entretanto, seus atos sobrevivem, suas repercussões fazem-se sentir até minha vida atual, sob a forma das enfermidades que sempre pesam e que acabrunham a minha velhice. Aí estão, sobretudo, – dizem –, o resultado dos excessos cometidos no passado longínquo, ao curso das guerras de invasão.
No que toca a esse passado, a dúvida não é possível. Em minha vida atual fui isentado de todo serviço militar, em face a fraqueza de minha vista. Entretanto, em 1870, sentindo que poderia prestar um serviço qualquer, alistei-me como voluntário. Em quinze dias aprendi o manejo das armas e completei o curso da escola de pelotões, de maneira a servir de instrutor nos quadros do meu batalhão.
No espaço de seis meses tornei-me, sucessivamente, sub-oficial, sub-tenente, lugar-tenente e estaria ainda progredindo em graus, se a paz não se tivesse feito. Ora, meu pai não foi soldado e nada na vida presente havia me preparado para a função de armas.
O beneditino, e talvez também o religioso de São Bernardo, se encontram em mim.
Reúno todos esses ensinamentos idênticos que me foram dados a esse respeito por diferentes médiuns, distanciados milhas uns dos outros, porém, insisto sobre a necessidade de manter uma grande prudência nessas matérias. Todavia, posso constatar no encadeamento de minhas vidas terrenas, o efeito dessa grande lei de justiça e de evolução que rege todo o destino humano.

“Há uma misteriosa ligação entre o discípulo e o mestre? Reparemos em que meu nome está incrustado no de Allan Kardec que, na realidade, se chamava: Hippolyte Léon Denisard Rivail.”
... Vidas quase de todo apagadas... Um passado quase esquecido... Uma misteriosa ligação...

Eruditos e estudiosos que tiveram acesso aos documentos particulares da Sociedade Espírita de Pais afirmam que os espíritos teriam revelado a Allan Kardec, aquém de sua encarnação como druida, sua vida na Boêmia, sob a personalidade de Jan Huss. Nesse caso encontramos uma valiosa pista para a compreensão dessas “vidas quase de todo apagadas e dessa misteriosa ligação” através de Jerônimo de Praga, guia espiritual de Léon Denis e que foi, igualmente, o maior amigo e o mais eminente discípulo de Jan Huss. Principalmente no crepúsculo da vida do escritor, quando Denis preparava seu derradeiro livro, O Gênio Céltico e o Mundo Invisível, e se preparava, ao mesmo tempo, para abandonar o cenário de suas lutas terrenas, Jerônimo e Kardec parecem volitar incessantemente em torno do octogenário alquebrado e cego, de tal sorte que a última mensagem espiritual recebida por Denis se torna em um verdadeiro anúncio e, ao mesmo tempo, numa consagração. Parte de Kardec e diz:

“... Correspondestes às expectativas ocultas da vontade divina e no reino da luz respirais...”

Não o futuro do verbo, mas o presente. E Léon Denis compreendeu essa sutil intenção. Eis a observação de Mlle. Baumard:
“O mestre tinha o costume de ouvir a leitura das comunicações recebidas no dia posterior ao das sessões. Dessa vez não procedeu assim e foi só depois de seu decesso que essa mensagem assumiu, diante de nós, seus discípulos, sua verdadeira significação...”
A irrupção de Jerônimo de Praga na vida de Léon Denis deu-se no dia de Finados, 2 de novembro de 1882. O escritor, então com 36 anos, encontrava-se em um arrabalde, Mans, reunido a um grupo de operários espíritas. Em sua obra O Mundo Invisível e a Guerra, encontramos essa narrativa:
“De certo nenhum dos outros assistentes conhecia a história do apóstolo tcheco. Eu bem sabia que o discípulo de Jan Huss fora queimado vivo, como o seu mestre, no século XV, por ordem do Concílio de Constança, mas não pensava em nada disso naquele momento. Em pensamento posso ainda ver a humilde estância em que fazíamos a sessão, em número de dez pessoas, em volta de uma mesa de quatro pés. Apenas dois obreiros mecânicos e uma mulher nela apoiavam as mãos rudes e escuras. E eis que o móvel ditou por movimentos solenes e ritmados:
“Deus é bom! Que sobre vós se espalhe a sua bênção, como o benéfico orvalho, pois as consolações celestes não se distribuem senão aos que procuram a justiça. Lutei na arena terrestre, mas desigual era a luta. Sucumbi, porém das minhas cinzas surgiram defensores animosos; marcharam pela estrada que eu pratiquei. São todos meus filhos muito amados.

Jerônimo de Praga”